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9 de janeiro de 2010

O Parto da Berenice (Final)


De Gildázio Vieira
O PARTO DA BERENICE
Parte 3
(Final)


Berrava e esperneava
Deu um trabalho danado
Para lavá-lo e vesti-lo
Prá ficar bem arrumado
E o deu a Berenice
Com doçura e meiguice
Para ser amamentado


No grande peito leiteiro
Ele o queixo baixou
Em menos de cinco minutos
Um litro e meio mamou
O grande peito esticado
Cheio de leite, pesado
Ficou murcho e desabou


Catarino vendo aquilo
Ficou preocupado, penseiro
Prá criar esse menino
Ia precisar de dinheiro
Pela amostra que veio dar
Parecia vindo do Ceará
E não do ventre caseiro


Mamou tanto que esmoreceu
Ficou no ombro a esperar
O momento oportuno
Para poder arrotar
Arrotou e o barulho
Fez cair um embrulho
Que estava num sofá


Colocaram-no na rede
Para uma soneca tirar
Ele dormia tão pesado
Na redinha a balançar
Roncava feito uma cachoeira
Descendo as ribanceiras
No Agreste do Ceará


Depois que ele acordou
Veio gente o visitar
Cada um trazia chupeta
Pro Garrafada chupar
E alguém trouxe uma balança
Pro recém nascido pesar


Fizeram então a pesagem
O povo se admirou
Oito quilos e meio
Foi o que ele pesou
Já tirando a tara do saco
E os pelos do sovaco
Pois já peludo chegou


Depois disso a contenda
Qual o nome a lhe dar
Uns diziam, põe Vicente
E outros: é Waldemar
Clemência, a debochada
Disse, põe Garrafada
É o que ouço falar


Catarino ficou vermelho
Mas de nada reclamou
O pessoal malicioso
Com o rabo de olho o olhou
A Berenice sorriu
Muito contente o pariu
Apesar do trabalho e dor


Enfim chegaram a um acordo
A Berenice aceitando
Com tantos nomes que deram
Um a um eliminando
Esse era prá ficar
Rosenildo Souza Aguiar
E ele na rede olhando


Na sede do município
No cartório competente
Foi assentado o registro
Diante de muita gente
O Oficial escreveu
E foi ele mesmo quem leu
Pro Catarino contente.


No livro 2 folha cem
Consta o que vou falar
Está assentado o registro
De Rosenildo Souza Aguiar
Filho de Catarino e Berenice
Com os sobrenomes que disse
E só me falta assinar


Assinado e carimbado
E firma reconhecida
O Catarino orgulhoso
Mostrou à sua querida
A certidão de nascimento
Do filho, com sofrimento
Ele veio dar lhe a vida


Quando completou 6 meses
Teve missa no povoado
O casal pediu a um amigo
Prá ele ser seu afilhado
Pois sendo ele cristão
Não queria o filho pagão
Devia ser batizado


Foram muitos os preparativos
Prá esse dia esperado
E mais de cem pessoas
Por eles foram convidados
Muita comida e bebida
Esqueceram a vida sofrida
Todos felizes, animados


Na hora da cerimônia
No meio da criançada
O menino todo bonito
A roupa bem engomada
Todo de azul e de touca
Sem a chupeta na boca
Pois ela nunca tem nada


Quando foram dar os nomes
De toda aquela meninada
Chegou a vez de Catarino
E a sua esposa amada
Rosenildo Souza Aguiar
E alguém prá chatear
Disse baixo “O Garrafada”


O padre muito zeloso
Um a um a batizar
Se aproximou do menino
Ficou pasmo a admirar
Mas que criança tremenda
Parece até de encomenda
E a Berenice a chorar


Pegou a água benta
Na cabeça derramou
Ele deu um berro tão grande
Que até o padre assustou
Botou língua pro vigário
E ainda quebrou um rosário
Que na sua frente encontrou


E depois foi só festança
Todo mundo a dançar
O Garrafada no chão
Tentando se engatinhar
Porque ninguém o pegava
Quinze quilos já pesava
Quem iria se arriscar?


Garrafada foi crescendo
Indiferente ao apelido
Legado pelos acontecimentos
Do seu velho pai querido
Alegre e sem ressentimentos
Zeloso e destemido
Intenso em todos os momentos
Orgulhoso do berço nascido


Veio a sêca impiedosa
Inclemente e traiçoeira
E leva-os do Sertão
Ilusão de uma vida inteira
Rumam-se prá São Paulo
A viver de outra maneira


Sabe-se que essa família
A terrinha jamais voltou
Nunca mais deram notícias
Tudo ali se acabou
Outra vida, outras terras
Só a saudade ficou

10 de dezembro de 2009

O Parto da Berenice (Continuação)

Pela vontade do autor, a estória em literatura de cordel intitulada O Parto da Berenice só continuaria se houvesse o pedido dos leitores. Como um grande número das pessoas gostaram e pediram de forma verbal, na enquete, em comentários e em e-mail, segue a segunda parte e assim será até a última.

Entre em contato com o autor através do seu e-mail: gilvisan@sunrise.ch

Segue os agradecimentos do Autor Gildázio Vieira:

Agradeço aos votos SIM para a continuidade do PARTO DA BERENICE, agradeço também à pessoa que votou NÃO, seu voto foi muito importante, ele comprovou a imparcialidade da FOLHA SEBASTIANENSE, pois, para quem não sabe eu sou o pai do Tayguara. Um "Muito obrigado" especial a Má(Márcia Quinette) à Dra Gardênia (Barabaridade tchê!!!!)a Kely Bringel(Kely, que malvadeza!! um filho só ja deu trabalho, imagine se fossem gêmeos) e agradeço à Talita (Tatá Rego)enfim, um parente nos enaltacendo, fiquei muito feliz, ta? 

Gildazio Vieira - Genebra-Suiça



Atendendo a muitos pedidos, eis a continuação do livro:
De Gildázio Vieira,
O PARTO DA BERENICE.


(continuação)


E ao completar sete meses
O mundo quis conhecer
A ansiedade era tanta
Que se apressou pra nascer
Berenice nada entendia
Tomou banho em água fria
Prá acalmar o bebê


E de nada adiantou
A dor só foi aumentando
O recurso era deitar-se
E o neném só chutando
Mandou chamar a parteira
Em uma égua ligeira
Chamada de desengano


Catarino muito aflito
Em desengano montou
Sem dó cravou-lhe as esporas
Em meia hora chegou
Foi gritando, minha tia
É hoje o grande dia
A Berenice a conta errou


Mas ela estava certa
O bebê é que se apressou
Quis logo vir para o mundo
Nove meses não esperou
A Berenice apavorada
Com dores, incomodada
Mas a parteira chegou


E Foi providenciando
Panos limpos, água quente
E uma cueca do Catarino
Colocou na sua frente
Dizendo, se encrespar
A cueca vai ajudar
É só cravar-lhe os dentes


Trouxe uma garrafa vazia
E mandou soprar
Soprou tanto que o fundo
Acabou por arrancar
Mas a criança não nascia
Por mais esforço que fazia
Querendo a mãe ajudar


A parteira tarimbada
Com mais de mil nascimentos
Não sabia o que fazer
Para nascer o rebento
Gritou para o Catarino
Parece que esse menino
É filho de um jumento


Pois nunca vi coisa igual
Na minha vida de parteira
A sua cabeça é tão grande
Que parece uma rodeira
Veja se me entenda
Chapéu só por encomenda
Quero ver só a moleira


Mas logo uma grande idéia
Por fim veio a iluminar
E pediu ao Catarino
Na barriga dela sentar
Ele sentou e fez pressão
E como se fosse um trovão
Fez a placenta estourar


E foi um Deus nos acuda
A água tudo a inundar
Parecia uma represa
Que acaba de se rachar
A parteira apavorada
E o menino, que nada
Nem sonhava apontar


A parteira em apuros
A Berenice gritando
O Catarino calado
Na garrafada pensando
Com certeza é a culpada
Foi dose exagerada
E a criança estrebuchando


A Parteira pensou um pouco
E por fim veio a falar
Prá essa criança nascer
É reza boa rezar
Vá chamar Dona Celeste
Pois esse cabra da peste
Quer mesmo é me arruinar


Catarino em disparada
Dona Celeste foi buscar
Contou-lhe o que se passava
Ela de pronto foi lá
Com um rosário potente
Folha de fumo nos dentes
E começou a rezar


Santa Luzia adorada
Eu vos peço proteção
Faça nascer esse menino
Com a força de um trovão
Pois ele está enganchado
Ta vindo atravessado
Dele tenha compaixão


Nem mesmo essa oração
Conseguiu desemperrar
A criança atravessada
Esforçava-se pra virar
A Berenice gemia
O Catarino saia
Dava dó só de olhar


Dona Celeste por sua vez
Falou com a dona parteira
Eu vou sair um pouquinho
Prá reunir rezadeiras
Vamos fazer uma corrente
Prá ver se esse inocente
Saia de qualquer maneira


Em meia hora reuniu
As famosas rezadeiras
Dona Marica e Joaninha
Salomé e Maria Rendeira
Chica Bunda Dura e Rosinha
Sofia e Ana Galinha
Onofra e Rita Ligeira


E ainda trouxe mais
Constância, Lia e Dolores
Angélica, Zora e Firmínia
Rogéria e Maria das Dores
Clemência, a debochada
Santinha e Joana das Flores


E Esse mundo de gente
Pelo quarto foi entrando
Todas ali ajoelhadas
E reza das boas rezando
Com muita fé e devoção
Com as mãos no coração
Prá Santa Luzia apelando


Santa Luzia querida
Coração cheio de amor
Te pedimos por piedade
Aliviai essa dor
A Berenice, coitada
Já está fraca e cansada
Esse parto tá um horror


Por isso é que Te pedimos
E imploramos humildemente
Faça nascer esse menino
Sem demora, de repente
Porque está emperrado
Rosca montada, enferrujado
Dê alívio a essa gente


Ficando em boa posição
Preparou-se para nascer
E a cueca do Catarino
A Berenice a morder
Ouviu-se então um estouro
Que mais parecia um touro
Na hora do fuzuê


A parteira competente
Pelas pernas o segurou
E uma boa palmada
Na bunda dele aplicou
Mas ele não quis chorar
Fechou a cara a zangar
Viu-se que não gostou


Um tanto admirada
A parteira procurou
Alguém com mais força
E a Dona Marica o entregou
Quando viu a mão armada
Prá evitar a palmada
Abriu a boca e chorou.


Não perca a continuação
na próxima edição!

9 de novembro de 2009

O Parto da Berenice

O cronista oficial da FOLHA SEBASTIANENSE e o autor do Livro AS AVENTURAS DO BATISTA lança mais um livro.

De Gildázio Vieira
Gênero: Literatura de Cordel

Grande Deus, Mestre e Senhor
Agradeço a inspiração
Prá escrever essa estória
E rimar com precisão
O Parto Da Berenice
Que se deu no meu sertão

Na Fazenda “Rabo de Peba”
Vivia o “seu” Catarino
Casado com a Berenice
Homem bom, de trato fino
Trabalhador e honrado
Cumprindo bem seu destino

Oito anos já se fazia
Que eles tinham se casado
Mas não vinha uma criança
Naquele lar abençoado
A Berenice tristonha
O Catarino falado

Existem muitas pessoas
Que vivem da vida alheia
Sempre esperando assunto
Prá fofocar hora e meia
E a vida desse casal
Era assunto de mão cheia

Sempre que ele passava
Começava a galhofa
Diziam: Olha ele lá
Coitado, dizem que é broxa
A “coisa” não funciona
Na hora H se “afroxa”

Outros com mais crueldade
Mas coma ar puro e singelo
Diziam, não é nada disso
Ouvi dizer que é donzelo
Na hora de bater o prego
Deixa cair o martelo

E diziam ainda mais
A Berenice, coitada
Já não sabe o que fazer
Já está desesperada
Há oito anos casada
E continua selada

Já deram até um conselho
Prá ir na serra e tirar
Casca de catuaba
Botar na pinga e deixar
Curtir até ficar roxa
Depois, é só esperar

Mas isso ela fez
E de nada adiantou
Durante um ano inteiro
Ela deitada esperou
Porque, de pé se cansava
E intacta, levantou

Catarino, como sempre
Dos boatos era inocente
Porque os fofoqueiros
Nunca falam pela frente
São covardes e revoltados
Invejosos e incompetentes

Muitas e muitas simpatias
Ensinaram ela a fazer
E muitas boas garrafadas
Ela o deu prá beber
Até espinho de quiabento
Ela botou prá ferver

A Garrafada mais forte
Diziam as fofoqueiras
Foi uma que ela fez
Com folha de cajazeira
Raiz de xique-xique
E talo verde de aroeira

E também nesse “preparo”
Misturou com alecrim
Pena nova de urubu
Raiz brava de aipim
Unha encravada de velha
E terra nova de cupim

E nessa receita ainda tinha
Fel e fígado de gambá
Asa esquerda de morcego
Cem gramas de samburá
Cinco gotas de creolina
E um bico de Carcará

Dizem que esta misturada
O Catarino bebeu
Dois litros numa semana
E ainda os beiços lambeu
Achou bom e pediu mais
Não se sabe se ela deu

Mas uma coisa foi certa
A Berenice mudou
Andava toda sorridente
Linda como uma flor
As faces lisas e coradas
E cantava versos de amor

Vendo essa transformação
As fofoqueiras assanhadas
Falavam umas as outras
Viu como ela está mudada?
Será que arrumou outro
Ou será a garrafada?

Depois de oito anos
Começaram a notar
Que o corpo da Berenice
Estava a arredondar
O povo via e pensava
Não acredito! será?

E novos falatórios
Começaram a circular
Diziam que o Catarino
Estava tudo a chifrar
Porque uma peruca de touro
Estava ele a usar

E pelas costas o chamavam
De corno manso e chifrudo
De espoleta molhada
Que nega fogo a miúdo
Que o filho não era dele
E sim de Pedro Graúdo

Uma das mais atrevidas
Um dia foi perguntar
Para a linda Berenice
Qual a razão do “mudar”
Ela de pronto respondeu:
A receita não vou dar

Então ficou confirmado
O motivo da transformação
Foi realmente a garrafada
Que cumpriu sua missão
Levantou o já defunto
Pondo-o em boa posição

E com o passar dos tempos
Começaram a notar
Que a dona Berenice
Estava mesmo a engordar
Com certeza uma criança
Ela estava a esperar

E as especialistas
Já falavam em menino
Pelo jeito da barriga
Era do sexo masculino
E diziam as gargalhadas
Seu nome é Garrafada
E será muito ladino


Prá continuar esse cordel
Escreva pra esse jornal
Faça o seu comentário
Por e-mail ou verbal
Tudo será anotado
A todos, muito obrigado
Que Deus os livre do mal

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