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5 de dezembro de 2010

O Assassino


Autor: Gildázio Vieira Santos

Joaquim era e ainda é, com certeza, um mulato forte as vezes muito trabalhador, de vez em quando a preguiça o pegava de jeito, mas... um bom rapaz, pode se dizer.Trabalhou com  o meu pai algum tempo atrás
Gostava de contar vantagens e valentias, certa feita espalhou que tinha gado, que um terço do gado que tinha na Lagoinha era dele e um dos que ouviram essa conversa perguntou ao meu pai: Dely, é verdade que Joaquim tem gado? Meu pai respondeu: De bicho que toma fôlego ele só tem mesmo o fiofó.
Mas vamos às valentias, um certo dia andando preguiçosamente pelos pastos, de repente um bafo nas costas, era uma vaca, assustou-se e fez carreira, à sua frente uma cerca de arame, de um só pulo saltou-a e continuou a correr, chegou na casa gritando: Hoje vou matar tudo que é bicho de quatro pés, tinha 3 tamboretes debaixo de uma árvore no fundo da casa, pegou um estraçalhou, pegou o segundo, da mesma forma, o terceiro tinha somente 3 pés, esse ele deixou intacto, entrou no quarto pegou uma peixeira e saiu gritando, não vai sobrar bicho de 4 pés vou matar todos, nisso meu pai vinha chegando do Mato Grosso (ainda bem que meu pai só tem 2 pés) e perguntou: que é isso rapaz? Ele respondeu o famoso refrão: Vou matar tudo que é bicho de 4 pés, Para isso você precisa de força e disposição e tirou do embornal um litro de pinga e falou, toma “uma” porque pinga dá disposição e raiva, ele tomou um golaço que a pinga foi pro “ombro” do litro, meu pai olhou prá faca e falou, com essa faca rumbuda? Couro de boi é grosso, essa faca vai é quebrar, ele vai correr atrás de você e vai te achar mesmo se você se esconder debaixo do pinico do Demo, é melhor você amolar essa peixeira.
Pediu mais pinga para dar mais sustança, uma pedra de amolar debaixo da árvore onde estavam os tamboretes e começou a afiar a faca e a pinga também começou a fazer efeito, resultado: ali mesmo dormiu, acordou calmo.
O tempo passou, um outro dia, bem de manhã ele tirava leite, encheu um balde de 20 litros colocou-o no ombro e foi levá-lo à cozinha, no trajeto , que não era longo, uma cobra cascavel passa à sua frente , ele dá um pulo, o balde destampado derrama leite no seu cangote desce pelas costas, aí foi a gota d'água, ou melhor, de leite, o sujeito ficou muito macho , colocou o balde em cima do fogão a lenha e disse gritando: Hoje vou matar todo bicho que arrasta.
Minha mãe lembrando dos assassinatos dos tamboretes também gritou: Menina, esconde o ferro de passar roupa!

18 de setembro de 2010

As aventuras do Batista em Pindaí


Gênero: Literatura de Cordel - Autor: Gildázio Vieira

Foi num dia de sábado
Fui com ele em Pindaí
Lá a feira era boa
Prá comprar fumo e pequi
E também olhar as moças
Pois são bonitas ali

Chegamos de manhãzinha
Tomamos nosso café
Fizemos a nossa compra
Na banca do seu Mané
E fomos ver as meninas
Que moram no cabaré

Quando foi bem à tarde
Na hora de retornar
Passamos perto da feira
Ainda muita gente lá
E um sujeito com uma faca
 A todo o mundo insultar

Era um cabra corpulento
E tinha a cara amassada
Dava pulos de dois metros
Com sua faca afiada
Xingava a mãe de todos
E ninguém dizia nada

Batista me disse: vamos indo
Precisamos nos apressar
Porque moramos longe
E chega de passear
Quanto a esse indivíduo
É melhor deixar prá lá

Quando passamos por perto
(Eu um pouco amedrontado)
Porque aos dezesseis anos
Eu era um pouco encabulado
E o cara gritou bem alto:
“Lá vai” um corno e um viado

O Batista olhou-o e sorriu
E disse, ta enganado
Ele acaba de vir da zona
E eu não sou casado
Viado e corno é você
Filho da puta e safado
E foi um corre-corre
De quem estava no lugar
A mulherada gritava
Me acuda Deus Jeová
E eu disse a todos
Vão ver a cobra fumar

Quem teve coragem ficou
Para ver a confusão
O Batista deu-lhe um soco
E a faca caiu no chão
Aí a porrada comeu
Sem ter dó nem compaixão

O valentão desarmado
Pedia por piedade
Que o deixasse ir embora
Ia deixar a cidade
Batista disse, da missa
Você não viu a metade

Pegou a sua faca
E cortou o cinturão
A calça foi arreada
Ficando bem rente ao chão
Com os balagandans de fora
Pois estava sem calção

E foi mais uma correria
Mocinhas a desmaiar
Perguntavam que é aquilo?
Que está sempre a balançar?
Umas ja mais sabidinhas
Iam as outras explicar

Eu tinha comprado uma corda
Bem fina e bem trançada
Que eu usaria mais tarde
Para amarrar uma jangada
Mas o Batista gritou-me
Me dê sua corda emprestada

Eu pensei, vai amarrá-lo
E entregar ao delegado
E pela primeira vez
Vão ter um preso pelado
Mas ele o pendurou pelo saco
Numa árvore que tinha ao lado
A cena foi engraçada
Mas um tanto comovente
Tinha alguns que comentavam
É demais prá um vivente
Ser pendurado pelo saco
Diante de tanta gente

Deixamos ali o valente
Esperando ser socorrido
Pegamos o caminho de volta
Comentando o ocorrido
E eu pensava na minha corda
E no que tinha servido

Passados alguns dias
Chegou ao nosso povoado
Um senhor muito distinto
Com uma carta do delegado
Naquele dia ausente
Por motivos explicados

Nessa carta agradecia
Pelos serviços prestados
Pois o cara era perigoso
Pela polícia caçado
Autor de vários crimes
Mas enfim, aprisionado

No PS ele dizia
Que estava desolado
O saco não agüentou
Desgarrou-se do coitado
Mas estava em tratamento
Mas será sempre capado

E quanto a minha cordinha
Nem uma palavra citou
Portanto dela até hoje
Eu não sei que fim levou
Mas quase não me fez falta
Pois a lagoa secou

12 de agosto de 2010

A Aventura do Batista num baile


De Gildazio Vieira


Um certo dia num baile
Era grande a animação
Vavá tocava a sanfona
Batista no violão
Valin no cavaquinho
Miúdo no percussão


Lindolfo batia o dado
Uns ganhavam,outros não
Deca no seu boteco
Para vender o pingão
Eu de lá não saía
Sempre com um copo na mão


Miguelzinho escondeu no mato
Uma garrafa de “coentro”
Quando fomos lá beber
Que descontentamento
Tinham bebido nossa pinga
E ainda mijaram dentro


Em outro canto da sala
Era grande a gritaria
Porque o jogo de truco
A laço frouxo corria
Vale seis ladrão de tento!
E mais barulho fazia


Laurindo bom de bola
Combinava um desafio
Com o time do Alegre
Prá ser na Boca do rio
O time do Mato Grosso
Perdeu, chorou e sumiu


O rela bucho seguia
Sem nenhuma alteração
Mas de repente um rapaz
Fez parar com a função
Porque uma moça o deixou
Bem no meio do salão


O cara muito agitado
Com muita raiva falava
Pôs a moça prá sentar
Dizendo que ela não dançava
Que isso era desaforo
Portanto, não aceitava


Perguntaram-lhe o motivo
Ela tentou se explicar
Dizendo que o rapaz
Era indecente e vulgar
Porque dançava de um jeito
Que não podia falar


Batista disse,menina
Venha comigo dançar
Ninguém manda em ninguém
Não é ele quem vai mandar
Se é incoveniente
Que procure o seu lugar




Mas o rapaz ofendido
Isso não levou em conta
E gritou “pro” nosso herói
A minha fica desconta
Batista respondeu, se puxar
Nela vou mijar na ponta


O cara puxou a faca
Que no alto clareou
E começou um corre-corre
E pouca gente ficou
Prá asistir a mijada
Que por pouco não falhou


E foi ai que começou
Um grande pega prá capar
O cara com a faca molhada
Quis no Batista enxugar
Alguém soprou o lampião
Pra mais difícil ficar


Mas logo tudo acabou
O sujeito foi vencido
Procurava sua eguinha
Que tinha desaparecido
E foi a pé prá sua casa
Lamentando o acontecido


Mas faltava muita gente
Que havia se espalhado
Na hora do arranca-rabo  
Prá não ver o punhal mijado
Encontrei meu irmão Gilberto
Na unha-de-gato enganchado

8 de julho de 2010

Crônica: As aventuras do Batista (Literatura de cordel)


As Aventuras Do Batista Em São Paulo
Gildázio Vieira


Um dia o Batista falou:
Chega de só trabalhar
Eu vou fazer uma viagem
Outros ares respirar
Pretendo ir a São Paulo
Tenho amigos por lá


Mas como ele sabia
Que em Sampa é perigoso
É ladrão trombando em ladrão
Cada um mais perigoso
Pensou em uma astúcia
Pois era astucioso


Pegou folhas de jornal
E com elas fez “dinheiro”
Amarrou mais de trezentas
Fez um pacote maneiro
“Se pensam que vão me enganar
“Engano eles primeiro”


Esse pacote de falsas
Em um lenço amarrou
E num dos bolsos da calça
Ele ali as colocou
De longe via-se o volume
De tão grande que ficou


O dinheiro de verdade
Pôs no bolso do calção
Porque ali é seguro
Contra ataques de ladrão 
E também nesse lugar
Ninguem vai meter a mão


Chegando na rodoviária
Por um ladrão foi notado
Que logo se aproximou
Dizendo muito educado:
Eu aqui sou segurança
Prá pessoas de outro Estado


E foi dizendo ainda mais
É preciso ter precaução
Pois vejo que leva dinheiro
E aqui tem muito ladrão
Mas o senhor estando comigo
Eles não atreverão


Pois sou muito conhecido
Os ladrões ja me conhecem
E sabem que “sou da lei”
E a ninguem aborrecem
E se um se atrever
Terá o lugar que merece


Batista disse, que bom
Chegou em boa ocasião
Pois trago muito dinheiro
Prá comprar um caminhão
E digo sinceramente
Tenho medo de ladrão


O ladrão disse, amigo
Não precisa se amedontrar
Me dê o seu dinheiro
Eu tenho onde o guardar
Aqui na minha pasta
Que é um bom lugar


O Batista lhe entregou
O pacote de jornal
E foram procurar um taxi
O ladrão muito cordial
Oferecendo cigarro
Bebidas e coisa e tal


Passando frente a uma loja
O Batista lhe disse então
Preciso comprar um presente
Prá filha do meu irmão
Ela é minha afilhada
E a tenho no coração


E tornou a falar
Com o ladrão sorridente
Que não tinha mais dinheiro
Para comprar o presente
E abrir o pacote ali
Não era conveniente


O gatuno mais que depressa
Do seu bolso retirou
Um bom pacote de notas
E ao Batista entregou
Dizendo: depois se acerta
“Não esquenta”, por favor,


O Batista entrou na loja
E um pouco se demorou
Olhou um monte de coisas
E claro, nada comprou
E olhando pela vidraça
O bandido não avistou


Saiu depressa da loja
Perguntou a um policial
Onde tomaria um taxi
A informação foi legal
E se mandou para a Penha
No carro lendo jornal


Com o dinheiro do bandido
Ele pagou a corrida
E ainda deu boa gorja
Pro chaufer na despedida
E ainda sobrou grana
Prá pagar muita bebida


O Batista ficou pensando
Do bandido a decepção
Quando abrisse o pacote
Ia ler a inscrição :
“Te peguei malandro otário
Vá mudar de profissão”


Lá em São Paulo o Batista
Se danou a passear
Foi até o Ipiranga
O “GRITO” foi dado lá
D.Pedro muito esperto
Escolheu bem o lugar


No museu do Ipiranga
Viu coisas interessantes
Viu o lenço do D.Pedro
E canhões ex-fumaçantes
Viu a calcinha da Princesa
Pendurada num barbante


Também foi ao Morumbí
Ver o nosso Coringão
Que perdeu para o Palmeiras
Bem naquela ocasião
Tudo culpa do juiz
Incopetente e ladrão


Na Avenida Paulista
Ficou maravilhado
Quanta riqueza e pujança
Num País tão assolado
Mas, o Coração do Brasil
Tem o seu significado


Lá na rua das palmeiras
Foi na Rádio Nacional
Ver o primo Edgard de Souza
Que lhe foi muito cordial
Depois foi ver o Zé Bétio
Lá na rádio capital


Mas na Praça da República
Teve de ficar esperto
É lugar de travestís
E trombadinhas incorretos
Viu o Edifício Itália
Que situa ali bem perto


Na praça da República
Deixou ali as amarguras
Que linda praça, meu Deus!
Que estranhas criaturas
E na Praça Ramos o Teatro
E sua linda arquitetura


Seguiu então seu caminho
Pelo viaduto do Chá
Entrou na Rua Direita
(outra mais torta não há)
Enfim a Praça da Sé
Pois precisava rezar


Entrou na grande igreja
Fez a sua oração
Pediu paz para o mundo
E chuva para o sertão
Mas, ao sair nas escadarias
Deu de cara com um ladrão


O Batista se trajava
Com chapéu de boiadeiro
As pessoas viam nele
Homem de muito dinheiro
Foi aí que o ladrão
Quis dar o golpe certeiro


O malandro disse, amigo
Me escuta por favor
Estou na rua a negócio
Sou um grande corretor
Se o senhor quiser eu te vendo
A estação do metrô


Batista disse, meu caro
Coisa mais linda não há
Eu estava agora mesmo
Sua beleza admirar
Dependendo das condições
A estação vou comprar


O gatuno disse então
Faço em dois pagamentos
O primeiro é agora
De um milhão e quinhentos
O outro de igual valor
Na hora dos documentos


Dinheiro não é problema
Disse ele de boa fé
É só ligar para o banco
O gerente manda um chaufer
Com uma maleta repleta
Da quantia que eu quiser


Mas o que eu quero saber
Isso muito me convém
E sem o que eu vou dizer
Nenhum negócio não tem
Quero saber se a sua mulher
Entra no rolo também


O bandido não esperava
E muito zangado ficou
E recebeu uma “pernada”
Pelas escadas rolou
Vá vender sua estação
Pro trouxa do seu avô


E tornou a entrar na igreja
O padre foi procurar
Porque não achava correto
Frente à igreja brigar
Senhor vigário, bom dia
Vim aqui me confessar


O Padre disse meu filho
Confessar é a minha missão
Mas aqui tem uma tabela
Cada pecado um barão
E se tiver mais de mil
Vai passar de um milhão


O Batista falou: danou-se!
De graça nem um sermão?
Esta cidade é de louco
Não vou ficar aqui não
Em cada esquina um viado
Em cada rua um ladrão


Mais de um mês em São Paulo
O Batista desfrutou
Andou por muitos lugares
Muito solado gastou
E voltou para o sertão
E suas façanhas contou 

17 de maio de 2010

Crônica: As aventuras do Batista (Literatura de cordel) A Aventura do Batista num boteco


Gildázio Vieira Santos


Num domingo ensolarado
Saiu para passear
Entrou em um boteco
Tinha muita gente por lá
Porque um forasteiro
Acabava de chegar


Como era de costume
 A todos cumprimentou
Achou um lugar livre
Naquele canto sentou
Falava com alguém ao lado
Quando o forasteiro o chamou


E você que agora chega
Não se faça de rogado
Venha beber uma pinga
Tá paga, não é fiado
Comigo todo mundo bebe.
Batista disse, obrigado


Mas o tipo insistiu:
Acho que não entendeu
Eu disse para beber
O povo ai estremeceu
Por bem menos que isso
 O pau um dia comeu


Nosso herói muito tranquilo
Da cadeira levantou
Chegou bem perto do cara
E com firmeza falou
Eu disse que não quero
É surdo ou ignorou?


Até que gosto de um gole
Mas ando meio enfadado
Ja faz mais de um mês
Que deixei o copo de lado
Por isso mais uma vez
Te digo muito obrigado


Mas o cara era teimoso
Daqueles que não desgarra
E falou para o Batista
Você vai beber na marra
O Batista retrucou:
 Agora começa a farra


E falou para o vendeiro
Dê um litro de truaca
Misture com querosene
Ela está um pouco fraca
Esse porgante é “dos bom”
E não vai causar ressaca


O vendeiro fez a mistura
E o cara desconfiado
O Batista encheu um copo
E disse: beba safado
O cara respondeu, nem morto
Eu bebo esse ensopado


Vai beber e bem mansinho
Ou você gosta ou não gosta
E deu-lhe um soco no queixo
Que a cara virou pras costas
E alguém logo gritou
Já sinto cheiro de bosta


Bebeu o litro inteirinho
Sem fazer qualquer besteira
Pegou sua trouxa e saiu
Sumindo nas ribanceiras
Foi visto em Itamirim
Curando a caganeira

16 de abril de 2010

Crônica vencedora da promoção

Agradecemos e parabenizamos a Urias Wesclei (foto) pela crônica enviada ao qual  ele fez jus  ao prêmio de R$ 100,00 ofertado pela Folha Sebastianense.

A proposta do botijão
Literatura de cordel


Preparem-se queridos leitores,
Pois uma história vou contar,
Só não me perguntem sobre os atores,
Pois não posso propagar,
Se é ou não verdade atestar não poderei,
Mas pelo preço que comprei, 
Também vou lhes ofertar.


Um já é senhor idoso,
Proprietário de um carro,
Que nada tem de novo,
De bufunfa estava quebrado,
Seu carro estava parado,
Em sua casa estacionado,
Mas muito bem conservado.


O outro é um rapaz,
Autêntico vida boa,
Sustentado pelo pai,
Sem patrão e sem patroa,
Que nada faz da vida,
Sem trabalho nem lida,
Não toma sol e nem garoa.


Os dois se encontram,
E começam a conversar,
Cada um se queixando,
Do que a vida lhes dá,
O malandro se queixa da sorte,
O idoso se preocupa com a morte,
Que está próximo de encontrar.


Surge uma grande idéia então,
E ambos só têm a ganhar,
“Tu me roube um botijão”,
“E bom preço vou te pagar”,
O malandro topa, “nada mal”,
“Tou precisando de grana afinal”,
“Só falta escolher um besta pra roubar”.


O negócio ficou acertado,
Em breve se encontrarão,
Cada um foi pra o seu lado,
A zanzar na rua sai o ladrão,
O idoso entra pra seus afazeres,
A cuidar de seus interesses,
Até que chegue botijão.


O idoso se põe a pensar
“Este é meu dia de sorte”,
“Vou comprar um botijão”,
“Quem sabe até dou calote”,
“Neste malandro matuta”,
“tão esperto quanto mula”, 
“O mundo é sempre do mais forte”.


O malandro não precisou muito andar,
Cara esperto não perde tempo,
Grana fácil vou ganhar”,
Na porta do idoso ta batendo,
Este sai a toda pressa,
Então paga sua merreca,
Se explodindo de contentamento.


“O mundo é de quem usa a cuca”,
“Coitado deste idiota”,
“Que deixou seu carro na rua”,
“Vai ficar de boca torta”,
“Quando descobrir que foi furtado”,
“Vai bater no delegado”,
“Vou trocar o gás agora”.


Dia da caça e dia do caçador,
O rapaz não teve piedade,
Ao velhinho sacaniou,
 “Pilantra miserável, covarde”, 
“Se eu pegar este safado”,
“Vai terminar enforcado”,
O arrependimento só chega tarde.


“Meu filho me acuda”,
“Vou morrer do coração”,
“Pois um bandido malvado”,
“Não me teve compaixão”,
“Retirou do meu carro”,
“E me vendeu muito caro”,
“O meu próprio botijão”.


Nem o pai nem o filho,
Denunciaram o espertalhão,
Que saiu feliz da vida,
Com a grana do botijão,
Porque ladrão que rouba ladrão,
Tem cem anos de perdão,
Então não há reclamação.

15 de abril de 2010

Poema em Homenagem à Sebastião Laranjeiras

Recebemos este poema já faz certo tempo mas aguardamos a melhor oportunidade para o publicarmos. Agradecemos a sua autora por nos ter enviado o mesmo.


Minha cidade, meu  orgulho!  
Luz Marina Alcântara


Lá, bem no infinito azul, do horizonte
Misturada  à poeira  da caatinga  deste  nordeste
Dentro  de  grotões  e palmeiras  da  serra  geral
Iluminada  pelos  raios  coloridos do  arco-iris.
Ela se desponta...
Carregando consigo belezas naturais.


Sebastião Laranjeiras  é seu nome!
Cidadezinha interiorana
Que escreve e faz história
A  brancura do algodão
O doce mel da cana-de–açúcar
Estão vivos em nossa memória.
Cidade  de Terras férteis
Que atraem agricultores
Celeiro de frutas e  grãos.
Quanta fartura!
Quantos  amores!
Sebastião Laranjeiras!
O canto dessa cidade é meu.
É nosso!
O brilho que vem do sol
Iluminando suas pastagens, seu gado,
Suas águas cristalinas que escorrem serra abaixo
É minha! É vossa!
Riqueza que a natureza nos deu
Não  podemos  dividí-la
Preservar, sim.
Com muito sangue
Com muita raça!


Legisladores, comerciantes
Cidadãos  sebastianenses
Acordem!
Em mãos temos grande missão
Colocar Sebastião Laranjeiras
Em lugar de destaque
Nesta  grandiosa  nação.

13 de março de 2010

Crônica: As aventuras do Batista (Literatura de cordel)


Do Livro 
As aventuras do Batista 
de Gildázio Vieira Santos


Eu vou contar a vocês
O que se passou no Sertão
Pois o nosso amigo Batista
Nasceu naquele rincão
Antonio Batista de Souza
Um bom amigo, um irmão


A aventura do Batista 
com a onça pintada


O Batista gostava muito
De fazer grandes caminhadas
Um dia vindo da cidade
Era alta madrugada
Chegando na Volta Grande
Deu de cara com uma pintada


Quando ele avistou a onça
Com a boca arreganhada
Há poucos metros à sua frente
Pronta prá dar a esticada
Gritou alto: Estou frito!
Chegou a hora marcada


Como andava desarmado
Clamou ao Bom Jesus Da Lapa
E pensou bem rapidinho
O jeito é sair no tapa
Se eu correr ela me pega
Nem meu espírito escapa


A onça avançou nele
E ele o corpo “negou”
Na direção que ela foi
Uma grande árvore encontrou
O choque foi tão grande
Que o ipê derrubou


E logo deu meia volta
E outra vez tentou
Pulou em cima do Batista
Ele com ela abraçou
Ora em cima, ora embaixo
E muito tempo lutou


A onça já bem cansada
Um pouco se relaxou
Batista deu-lhe uma porrada
Ela desmaiada ficou
E para ganhar mais tempo
Outra porrada aplicou


Entrou no mato e tirou
Uns cipós de caroá
Amarrou-a bem amarrada
Não podia vacilar
Jogou a “bicha” nas costas
Que chegou a envergar


Chegando no Mato Grosso
Esperou o sol nascer
Sentado em cima da onça
Que nem podia mexer
Não demorou muito tempo
Veio muita gente prá ver


Fizeram uma grande jaula
Para a onça acomodar
E gente de todo lado
Vinha a gatona olhar
E teve até um esperto
Que quis ingresso cobrar


Tiraram fotografias
Da linda onça pintada
Pois muitos queriam ter
Uma lembrança guardada
Até hoje na minha sala
Tenho uma ampliada


Ficou ali alguns dias
Para todo mundo olhar
Mas veio um cara de fora
Querendo a onça comprar
Ela foi parar num circo
Mas recusou-se a trabalhar


Essas e outras proezas
O Batista viu passar
Foram tantas que a memória
As vezes me quer falhar
De muitas ainda me lembro
E a vocês vou contar

5 de fevereiro de 2010

Crônica


Por Gildázio Vieira
gilvisan@sunrise.ch

MISTRONGUE

1970, recenseamento demográfico. Eu participei. Meu setor era lá pras bandas da boca da Caatinga. Ninguém queria por ser longe demais, sobrou pra mim. Na época,  não tínhamos motos, eu fui montado no Pindolosca que, quando descobriu ser longa a viagem quis empacar, nunca usei esporas, apenas um cipózinho e sem mesmo usá-lo, apenas uma boa conversa ao pé do ouvido (contei prá ele que precisava muito daquele dinheiro) ele concordou e prá lá fomos.
Sempre respeitei o sigilo, as informações que nos eram dadas nunca vazaram, por isso ninguém soube de “Mistrongue”, mas o tempo passou e hoje falo sobre “Mistrongue”. Como todos sabem, em 1969, o HOMEM foi à lua e Neil Armstrong o primeiro a pisar no nosso satélite natural, agora alguns de vocês começam a me entender.
Pois é, numa das perguntas, a quantidade de filhos e nomes, eis que uma senhora muito gentil me disse: esse é o meu segundo filho, o MISTRONGUE de 1 ano, eu fiz ouvidos mocos e perguntei: como ele se chama? Ela repetiu: MISTRONGUE, quando ele nasceu meu irmão que mora em São Paulo estava aqui passeando e colocou esse nome nele, ele disse que é nome de um homem poderoso, foi até na lua; tudo bem, coloquei Mistrongue. E me lembro do sobrenome, mas, por respeito não o registro aqui, mas me lembro perfeitamente: Mistrongue era uma criança bonita, brincava nu no piso de terra da casinha de pau a pique, casa de enchimento como eram conhecidas essas casas.
Terminou o censo demográfico, fui prá São Paulo, lá fiz algumas amizades, amigos e amigas que nunca mais vi, mas a internet aproxima e reaproxima as pessoas, daqui da Suíça voltei a ter contato com uma amiga de muito tempo, ela é psicóloga de uma grande multinacional.
No ano 2002, numa das minhas idas ao Brasil, ela me disse: você precisa vir à minha casa, me ver e conhecer os homens da minha vida (o marido e 2 filhos) combinamos e fui, abraços e beijos saudosos no encontro e depois as conversas, foi quando ela me disse: entrevistei hoje um rapaz lá da sua terra, Sebastião Laranjeiras, rapaz inteligente e candidato eleito a um bom cargo lá na empresa e continuou, mas achei tão estranho o seu nome, veja só, o rapaz se chama MISTRONGUE, me espantei e ela me perguntou: você o conhece? Contei-lhe o que se passou e falei pra mim mesmo:






QUE MUNDO PEQUENO!




O cronista oficial da Folha Sebastianense estará de férias. Para os leitores não ficarem sem crônica, vamos realizar um concurso cultural onde qualquer pessoa possa participar com sua obra, que seja de sua própria autoria, que não agrida, denigra ou difame a outrem. As crônicas recebidas serão analisadas por todos os componentes da Folha Sebastianense e o Cronista oficial, Sr. Gildázio Vieira escolherá aquela que ganhará e figurará no espaço da crônica do mês de abril. O autor da crônica escolhida ganhará o prêmio de R$ 100,00 (Cem reais). Receberemos até o dia 31/03/2010 através dos seguintes meios: E-mail faleconosco@folhasebastianense.com.br ou sebastiaolaranjeiras@gmail.com Pessoalmente ou pelo correio: Boletim Informativo Folha Sebastianense Povoado Mato Grosso, S/N - Zona Rural 46450-000 - Sebastião Laranjeiras - BA

9 de janeiro de 2010

O Parto da Berenice (Final)


De Gildázio Vieira
O PARTO DA BERENICE
Parte 3
(Final)


Berrava e esperneava
Deu um trabalho danado
Para lavá-lo e vesti-lo
Prá ficar bem arrumado
E o deu a Berenice
Com doçura e meiguice
Para ser amamentado


No grande peito leiteiro
Ele o queixo baixou
Em menos de cinco minutos
Um litro e meio mamou
O grande peito esticado
Cheio de leite, pesado
Ficou murcho e desabou


Catarino vendo aquilo
Ficou preocupado, penseiro
Prá criar esse menino
Ia precisar de dinheiro
Pela amostra que veio dar
Parecia vindo do Ceará
E não do ventre caseiro


Mamou tanto que esmoreceu
Ficou no ombro a esperar
O momento oportuno
Para poder arrotar
Arrotou e o barulho
Fez cair um embrulho
Que estava num sofá


Colocaram-no na rede
Para uma soneca tirar
Ele dormia tão pesado
Na redinha a balançar
Roncava feito uma cachoeira
Descendo as ribanceiras
No Agreste do Ceará


Depois que ele acordou
Veio gente o visitar
Cada um trazia chupeta
Pro Garrafada chupar
E alguém trouxe uma balança
Pro recém nascido pesar


Fizeram então a pesagem
O povo se admirou
Oito quilos e meio
Foi o que ele pesou
Já tirando a tara do saco
E os pelos do sovaco
Pois já peludo chegou


Depois disso a contenda
Qual o nome a lhe dar
Uns diziam, põe Vicente
E outros: é Waldemar
Clemência, a debochada
Disse, põe Garrafada
É o que ouço falar


Catarino ficou vermelho
Mas de nada reclamou
O pessoal malicioso
Com o rabo de olho o olhou
A Berenice sorriu
Muito contente o pariu
Apesar do trabalho e dor


Enfim chegaram a um acordo
A Berenice aceitando
Com tantos nomes que deram
Um a um eliminando
Esse era prá ficar
Rosenildo Souza Aguiar
E ele na rede olhando


Na sede do município
No cartório competente
Foi assentado o registro
Diante de muita gente
O Oficial escreveu
E foi ele mesmo quem leu
Pro Catarino contente.


No livro 2 folha cem
Consta o que vou falar
Está assentado o registro
De Rosenildo Souza Aguiar
Filho de Catarino e Berenice
Com os sobrenomes que disse
E só me falta assinar


Assinado e carimbado
E firma reconhecida
O Catarino orgulhoso
Mostrou à sua querida
A certidão de nascimento
Do filho, com sofrimento
Ele veio dar lhe a vida


Quando completou 6 meses
Teve missa no povoado
O casal pediu a um amigo
Prá ele ser seu afilhado
Pois sendo ele cristão
Não queria o filho pagão
Devia ser batizado


Foram muitos os preparativos
Prá esse dia esperado
E mais de cem pessoas
Por eles foram convidados
Muita comida e bebida
Esqueceram a vida sofrida
Todos felizes, animados


Na hora da cerimônia
No meio da criançada
O menino todo bonito
A roupa bem engomada
Todo de azul e de touca
Sem a chupeta na boca
Pois ela nunca tem nada


Quando foram dar os nomes
De toda aquela meninada
Chegou a vez de Catarino
E a sua esposa amada
Rosenildo Souza Aguiar
E alguém prá chatear
Disse baixo “O Garrafada”


O padre muito zeloso
Um a um a batizar
Se aproximou do menino
Ficou pasmo a admirar
Mas que criança tremenda
Parece até de encomenda
E a Berenice a chorar


Pegou a água benta
Na cabeça derramou
Ele deu um berro tão grande
Que até o padre assustou
Botou língua pro vigário
E ainda quebrou um rosário
Que na sua frente encontrou


E depois foi só festança
Todo mundo a dançar
O Garrafada no chão
Tentando se engatinhar
Porque ninguém o pegava
Quinze quilos já pesava
Quem iria se arriscar?


Garrafada foi crescendo
Indiferente ao apelido
Legado pelos acontecimentos
Do seu velho pai querido
Alegre e sem ressentimentos
Zeloso e destemido
Intenso em todos os momentos
Orgulhoso do berço nascido


Veio a sêca impiedosa
Inclemente e traiçoeira
E leva-os do Sertão
Ilusão de uma vida inteira
Rumam-se prá São Paulo
A viver de outra maneira


Sabe-se que essa família
A terrinha jamais voltou
Nunca mais deram notícias
Tudo ali se acabou
Outra vida, outras terras
Só a saudade ficou
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